Caso Master: PF revela 52 mensagens, contrato de R$ 131 milhões e relação entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes

 

PF revela 52 mensagens, contrato de R$ 131 milhões e relação entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes

O caso envolvendo o Banco Master ganhou novos contornos nesta semana após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirar o sigilo de documentos relacionados à investigação que envolve o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes.

O material analisado pela Polícia Federal reúne mensagens, documentos, metadados de arquivos e registros encontrados em aparelhos eletrônicos apreendidos durante as investigações. Entre os elementos que chamaram atenção estão as tratativas envolvendo um contrato milionário entre o Banco Master e o escritório de advocacia da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.

Segundo o relatório da PF, o contrato previa honorários de aproximadamente R$ 3 milhões por mês durante 36 meses, chegando a um valor total de cerca de R$ 131 milhões.

A investigação também identificou registros digitais indicando que um arquivo relacionado à minuta do contrato teve como última modificação um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. O escritório afirma, entretanto, que a participação do ministro ocorreu no contexto de uma análise sobre possíveis impedimentos legais para a contratação.

É importante destacar que a existência desses registros e das mensagens não significa, por si só, que tenha sido comprovada a prática de crime. O relatório da Polícia Federal apresenta elementos que ainda precisam ser analisados pelas autoridades competentes.

André Mendonça retira sigilo do caso

A decisão de tornar públicos os documentos ocorreu em 1º de setembro de 2026. André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao chamado caso Master, determinou a retirada do sigilo de parte do material que reúne informações extraídas dos aparelhos de Daniel Vorcaro.

O procedimento teve origem em uma investigação sobre o vazamento de mensagens encontradas nos celulares do ex-controlador do Banco Master. Em março deste ano, Mendonça já havia determinado a abertura de uma investigação específica para apurar o vazamento dessas informações.

Com a análise do material, a Polícia Federal identificou conversas e documentos que passaram a envolver também Alexandre de Moraes.

Segundo informações divulgadas após a retirada do sigilo, o material contém mensagens atribuídas a Vorcaro e referências ao ministro do STF, além de registros relacionados a outras autoridades.

Mendonça sinalizou ainda que pretende levar a discussão ao plenário do Supremo, diante da repercussão e da natureza das informações encontradas.

O celular de Daniel Vorcaro

Grande parte das informações agora conhecidas surgiu a partir da análise dos aparelhos eletrônicos de Daniel Vorcaro.

Durante as investigações relacionadas ao Banco Master, a Polícia Federal apreendeu dispositivos que continham grande quantidade de informações. Os investigadores passaram a analisar mensagens, arquivos, documentos, imagens e metadados.

Esse tipo de análise permite não apenas identificar o conteúdo de determinado arquivo, mas também informações sobre sua criação, edição e modificação.

Foi justamente a análise dos metadados que chamou atenção no caso do contrato envolvendo o escritório de Viviane Barci de Moraes.

De acordo com o relatório da PF, um dos documentos relacionados à contratação apresentava como autor o usuário identificado como Guilherme Benaz, administrador do escritório. Entretanto, a última modificação registrada no arquivo teria sido realizada por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

A informação se tornou um dos principais pontos do relatório porque indica que o ministro teve contato direto com a minuta do contrato antes da assinatura.

Contrato entre o Banco Master e o escritório de Viviane Moraes

As negociações começaram, segundo a investigação, em janeiro de 2024.

Em 11 de janeiro daquele ano, uma pessoa identificada nas mensagens como “Vivi Morais” teria enviado a Daniel Vorcaro uma minuta de contrato para prestação de serviços advocatícios.

A mensagem indicava que o documento estava sendo encaminhado para análise do banqueiro.

A Polícia Federal posteriormente examinou o arquivo compartilhado e encontrou os metadados que apontariam para diferentes usuários responsáveis por alterações no documento.

Dias depois, a minuta teria retornado ao banqueiro com marcas de revisão feitas por profissionais ligados ao Banco Master.

O documento passou por novas alterações até chegar à versão final.

Segundo o relatório, a última modificação atribuída ao usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” teria ocorrido em 15 de janeiro de 2024.

O contrato acabou sendo assinado por Daniel Vorcaro em 23 de janeiro.

A vigência prevista era de três anos, com 36 pagamentos mensais.

O valor dos honorários era de aproximadamente R$ 3 milhões por mês, resultando em um contrato de cerca de R$ 131 milhões.

A informação sobre o contrato foi posteriormente confirmada pelo escritório de Viviane Barci de Moraes, que sustentou que os serviços advocatícios foram efetivamente prestados.

O que dizem os registros sobre a participação de Moraes

A participação de Alexandre de Moraes na análise da minuta é um dos pontos mais sensíveis do relatório.

Segundo a versão apresentada pela defesa do escritório, o ministro teria sido consultado em razão de sua condição de marido da sócia-diretora do escritório.

O objetivo seria verificar a existência de eventual impedimento jurídico relacionado à contratação.

A justificativa apresentada é que o setor de compliance do escritório teria solicitado informações sobre possíveis processos envolvendo o Banco Master que pudessem estar sob relatoria ou julgamento de Alexandre de Moraes no STF.

O escritório afirma que não existia impedimento legal porque o ministro não teria julgado causas envolvendo o Banco Master.

Depois dessa verificação, o contrato foi assinado e, segundo a manifestação do escritório, os serviços contratados foram prestados.

A questão agora é justamente saber como esses fatos serão interpretados no âmbito das investigações e se houve ou não qualquer irregularidade na relação profissional.

Mensagens sobre pagamentos milionários

Outro ponto destacado pela Polícia Federal são as mensagens relacionadas aos pagamentos previstos no contrato.

Em fevereiro de 2024, Daniel Vorcaro teria questionado integrantes de sua equipe sobre o primeiro pagamento ao escritório.

As conversas mostram preocupação com o cumprimento dos prazos estabelecidos no contrato.

Em 8 de fevereiro, por exemplo, surgem mensagens relacionadas ao pagamento e aos dados bancários necessários para a transferência.

Ainda segundo o relatório, naquele mesmo dia teria sido realizado um pagamento superior a R$ 3,4 milhões para o escritório Barci de Moraes.

O valor identificado na transferência foi de R$ 3.422.268,14.

A documentação analisada pela PF também teria encontrado outros registros de pagamentos e cobranças relacionados ao contrato.

Cobrança de Fábio Faria

As mensagens analisadas pelos investigadores também mencionam o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria.

Em março de 2024, Faria teria enviado mensagem a Daniel Vorcaro pedindo que ele verificasse uma questão relacionada ao pagamento.

Na conversa, aparece uma referência ao chamado “Careca”, termo que, segundo a investigação e o contexto apresentado no relatório, seria uma referência a Alexandre de Moraes.

Após a mensagem, Vorcaro teria encaminhado uma cobrança interna para que o pagamento ao escritório fosse realizado.

Em uma das mensagens, o banqueiro demonstraria irritação com o atraso e classificaria o contrato como um dos mais importantes para o banco.

Segundo o relatório, ele teria determinado que o pagamento fosse realizado imediatamente.

Pouco depois, integrantes da equipe teriam encaminhado comprovante de transferência para o escritório.

O episódio chamou atenção dos investigadores porque as mensagens demonstrariam uma preocupação especial do banqueiro em evitar atrasos nos pagamentos.

Pagamento de mais de R$ 3,4 milhões

Os documentos analisados pela PF apontam para transferências de valores milionários.

Em uma das operações citadas no relatório, o Banco Master teria transferido R$ 3.422.268,14 para o escritório de Viviane Barci de Moraes.

A transferência aparece nas mensagens trocadas entre Vorcaro e funcionários do banco.

O valor chama atenção porque ultrapassa os R$ 3 milhões mensais previstos originalmente no contrato.

A diferença pode estar relacionada a questões tributárias, encargos ou à forma como o pagamento foi estruturado, mas a documentação divulgada precisa ser analisada em seu contexto completo para determinar a composição exata dos valores.

Questionamentos sobre a forma de pagamento

Outro trecho que ganhou destaque envolve pagamentos realizados posteriormente.

Em outubro de 2025, mensagens analisadas pela PF registrariam uma conversa sobre o pagamento ao escritório.

Vorcaro teria questionado se o pagamento havia sido realizado por Pix.

Um funcionário teria respondido que a operação havia sido feita dessa forma, utilizando os mesmos dados bancários empregados anteriormente em uma transferência via TED.

A resposta de Vorcaro teria demonstrado preocupação com a utilização do Pix.

Esse episódio passou a integrar o conjunto de informações analisadas pelos investigadores para compreender como eram realizados os pagamentos relacionados ao contrato.

Um segundo contrato entra na investigação

Além do contrato firmado diretamente entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, a Polícia Federal encontrou referências a uma segunda negociação envolvendo uma empresa ligada a Daniel Vorcaro.

O documento teria sido elaborado em maio de 2025 e envolveria a empresa Vikings Participações Ltda., representada por Vorcaro, e o escritório Barci de Moraes.

A proposta previa a prestação de serviços jurídicos e consultoria em áreas como administrativa, tributária e trabalhista.

O acordo poderia chegar a dezenas de milhões de reais ao longo de 36 meses.

Segundo a investigação, parte da negociação envolvia uma estrutura incomum de pagamento relacionada a aeronaves.

Jato e helicóptero aparecem nas negociações

De acordo com o relatório da PF, em maio de 2025 foram apresentadas propostas para a quitação do contrato.

Uma das alternativas previa o pagamento de parte do valor por meio de cotas de duas aeronaves: um avião executivo e um helicóptero.

Outra parcela estaria relacionada ao reembolso de despesas referentes à utilização das aeronaves.

Os documentos analisados pelos investigadores também apontariam que Vorcaro demonstrava preocupação com a disponibilidade das aeronaves para Alexandre de Moraes e sua esposa.

Em uma das conversas citadas no relatório, um integrante ligado ao banqueiro teria questionado Viviane sobre a utilização das aeronaves.

A resposta teria sido positiva, com elogios ao atendimento recebido.

Escritório nega que o segundo contrato tenha sido concluído

Apesar das informações encontradas pela PF, o escritório de Viviane Barci de Moraes apresentou uma ressalva importante.

Segundo a manifestação divulgada após a repercussão do relatório, o segundo contrato não teria sido efetivamente assinado.

O escritório afirma que não aceitou os termos propostos e, por isso, não recebeu cotas de aeronaves ou outros ativos previstos naquela negociação.

Essa diferença entre o que aparece nas tratativas investigadas e o que efetivamente teria sido formalizado será um dos pontos a serem esclarecidos durante o andamento do caso.

A própria Polícia Federal, conforme as informações divulgadas, não concluiu que todas as vantagens ou ofertas mencionadas nas mensagens tenham sido efetivamente aceitas ou recebidas.

Banco Central já acompanhava problemas do Banco Master

O episódio envolvendo os contratos e as mensagens ocorre dentro de uma investigação muito maior sobre o Banco Master.

Antes mesmo da prisão de Daniel Vorcaro, o Banco Central já acompanhava problemas relacionados à instituição financeira.

As investigações posteriores passaram a apontar suspeitas de irregularidades envolvendo operações do banco, problemas financeiros e possíveis fraudes.

A Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, avançou ao longo de 2026 e passou a investigar diferentes pessoas e empresas relacionadas ao caso.

Em março de 2026, André Mendonça determinou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro e de outros investigados após pedido da Polícia Federal. Segundo o STF, a investigação apura um suposto esquema de fraudes bilionárias relacionado ao Banco Master.

A Segunda Turma do Supremo posteriormente manteve a prisão preventiva de Vorcaro.

A crise do Banco Master

A situação do Banco Master se agravou até chegar à liquidação da instituição pelo Banco Central em novembro de 2025.

A crise de liquidez e as dificuldades financeiras passaram a ser um dos elementos centrais das investigações.

O caso ganhou dimensão nacional porque passou a envolver não apenas operações financeiras, mas também suspeitas sobre relações entre o banqueiro e diferentes autoridades, empresários, políticos e integrantes de instituições públicas.

Com a apreensão dos aparelhos eletrônicos de Vorcaro, os investigadores tiveram acesso a um volume expressivo de informações que ajudou a reconstruir parte dessas relações.

O que a PF concluiu até agora?

Um ponto fundamental é que o relatório da Polícia Federal não deve ser interpretado como uma sentença.

O documento apresenta elementos encontrados durante a investigação, incluindo mensagens, arquivos, metadados e registros financeiros.

A PF identificou, por exemplo, registros que apontam para a participação de Alexandre de Moraes na edição de uma minuta contratual.

Também foram identificadas mensagens relacionadas a pagamentos ao escritório de sua esposa.

Entretanto, a existência de uma relação profissional entre um banco e um escritório de advocacia, por si só, não constitui crime.

A questão central é determinar se houve algum conflito de interesses, favorecimento indevido, tráfico de influência ou outra irregularidade.

Essas conclusões dependem da análise das provas e das manifestações das partes envolvidas.

Alexandre de Moraes não comentou o conteúdo das mensagens

Alexandre de Moraes não apresentou, até o momento da divulgação das informações, uma manifestação pública detalhada sobre todo o conteúdo revelado pelo relatório.

O escritório de Viviane Barci de Moraes, por outro lado, afirmou que o contrato foi legítimo e que os serviços foram efetivamente prestados.

A justificativa apresentada pelo escritório é que a consulta feita a Alexandre de Moraes ocorreu justamente para verificar eventuais impedimentos legais.

O escritório também negou que o segundo contrato envolvendo aeronaves tenha sido efetivamente concluído.

Essas manifestações são relevantes porque apresentam uma versão diferente da interpretação que pode ser feita a partir das mensagens e documentos apreendidos.

Mendonça quer levar o caso ao plenário do STF

A retirada do sigilo aumentou significativamente a repercussão do caso.

André Mendonça afirmou que os novos elementos precisam ser avaliados institucionalmente e indicou a possibilidade de levar o assunto ao plenário do Supremo Tribunal Federal.

A investigação também gerou questionamentos sobre sua própria condução e sobre a validade de determinados atos processuais.

A Procuradoria-Geral da República passou a analisar o material, enquanto especialistas discutem os limites da atuação do relator e a forma como as provas foram obtidas e incorporadas ao procedimento.

O próprio STF já havia determinado, em março, uma investigação para apurar o vazamento das mensagens extraídas dos celulares de Vorcaro.

O que está em jogo

O caso Master deixou de ser apenas uma investigação sobre possíveis irregularidades financeiras.

Com a divulgação das mensagens, o episódio passou a envolver questões relacionadas à independência das instituições, relações entre agentes públicos e empresas privadas, conflitos de interesse e transparência.

A presença de um ministro do STF nas mensagens e nos registros relacionados a um contrato milionário envolvendo o escritório de sua esposa naturalmente aumenta a necessidade de esclarecimentos.

Ao mesmo tempo, é fundamental evitar conclusões antecipadas.

O relatório da PF reúne indícios e informações que ainda precisam ser confrontados com outras provas.

Também é necessário diferenciar uma relação profissional legítima de qualquer eventual prática ilícita.

Caso Master deve continuar repercutindo

A divulgação das mensagens representa apenas mais uma etapa de uma investigação que ainda está em andamento.

O material apreendido nos aparelhos de Daniel Vorcaro continua sendo analisado e pode produzir novos desdobramentos.

O relatório divulgado também não encerra todas as questões envolvendo o Banco Master, seus negócios e as relações mantidas pelo banqueiro.

O STF deverá avaliar os próximos passos da investigação, enquanto a Procuradoria-Geral da República poderá se manifestar sobre os elementos apresentados pela Polícia Federal.

A defesa dos envolvidos também terá oportunidade de contestar as conclusões dos investigadores.

Por enquanto, o que existe é um conjunto de documentos e mensagens que levantou questionamentos relevantes sobre a relação entre Daniel Vorcaro, Alexandre de Moraes e o escritório de Viviane Barci de Moraes.

O ponto mais sensível está justamente na combinação entre um contrato estimado em R$ 131 milhões, registros digitais que apontam para alterações realizadas por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, pagamentos milionários e mensagens que demonstram preocupação de Vorcaro com a regularidade desses pagamentos.

As autoridades agora terão de esclarecer o contexto completo desses fatos e determinar se houve apenas uma relação profissional entre as partes ou se existem elementos capazes de caracterizar alguma irregularidade.

Enquanto isso, o caso Master continua no centro do debate político e jurídico brasileiro, com novas informações podendo surgir à medida que a investigação avance.