Durante muitos anos, para grande parte das famílias, a ideia de rendimento estava diretamente associada ao salário recebido no final de cada mês. Ter um emprego, receber o ordenado e organizar as despesas a partir desse valor era o modelo financeiro mais comum. Hoje, porém, essa realidade está a mudar.
O aumento do custo de vida, a pressão sobre os orçamentos familiares, a transformação do mercado de trabalho e o crescimento das oportunidades proporcionadas pela internet estão a levar cada vez mais pessoas a procurar outras formas de obter rendimento.
Investimentos financeiros, trabalhos freelance, prestação de serviços, venda de produtos usados, criação de conteúdos digitais, pequenos negócios e diversas atividades realizadas através da internet passaram a fazer parte das estratégias utilizadas por consumidores que procuram complementar o rendimento principal.
Mas será que ter mais do que uma fonte de rendimento está realmente a tornar-se uma tendência generalizada?
Um estudo realizado pela ConsumerChoice, através de um questionário online com 755 participantes, ajuda a perceber melhor esta transformação. Os resultados mostram que 43% dos inquiridos já possuem mais do que uma fonte de rendimento. Outros 25% afirmam estar a considerar diversificar as suas receitas.
Entre os participantes com idades compreendidas entre os 18 e os 34 anos, os números são ainda mais expressivos: metade, ou seja, 50%, já possui mais do que uma fonte de rendimento e uma parcela adicional também demonstra interesse em procurar alternativas.
Os números mostram que a diversificação financeira não é apenas uma estratégia utilizada por investidores ou empresários. Está progressivamente a entrar na vida de consumidores comuns que procuram encontrar novas formas de equilibrar o orçamento mensal.
O salário continua a ser a principal fonte de rendimento
Apesar da crescente procura por alternativas, o salário continua a ocupar uma posição central na vida financeira da maioria dos consumidores.
De acordo com o estudo, 70% dos participantes apontam o salário como a sua principal fonte de rendimento. Ou seja, mesmo quando existem outras entradas financeiras, o rendimento proveniente do trabalho continua a desempenhar o papel mais importante no orçamento familiar.
O problema está na margem disponível depois de pagar as despesas.
Para 58% dos participantes, o rendimento principal não é suficiente para fazer face a todas as despesas ou permite suportá-las apenas com uma margem reduzida.
Esta realidade ajuda a explicar por que razão tantas pessoas procuram uma segunda ou até uma terceira fonte de rendimento.
Quando o salário cobre apenas as despesas essenciais, qualquer aumento no preço da alimentação, da habitação, da energia, dos transportes ou de outros bens e serviços pode provocar um impacto significativo no orçamento.
Uma despesa inesperada, uma reparação do automóvel, uma emergência familiar ou simplesmente uma subida generalizada dos preços pode ser suficiente para comprometer o equilíbrio financeiro.
É neste contexto que uma fonte adicional de rendimento pode deixar de ser vista apenas como uma oportunidade de ganhar mais dinheiro e passar a representar uma espécie de proteção financeira.
Ganhar mais para ter maior margem
Uma segunda fonte de rendimento pode ter diferentes objetivos.
Para algumas pessoas, o dinheiro adicional serve para pagar contas. Para outras, permite aumentar a capacidade de poupança, realizar uma viagem, comprar determinado produto ou simplesmente ter maior liberdade para lidar com despesas inesperadas.
Também existem consumidores que procuram utilizar o rendimento extra para construir uma reserva financeira ou investir pensando no futuro.
A diferença pode parecer pequena quando observada mês a mês, mas ao longo de vários anos um rendimento adicional pode representar uma quantia significativa.
Segundo os dados apresentados pela ConsumerChoice, entre as pessoas que já possuem uma fonte adicional de rendimento, 58% afirmam receber entre 100 e 500 euros por mês.
Outros 24% conseguem ultrapassar os 500 euros mensais.
Embora estes valores não sejam necessariamente suficientes para substituir um salário, podem representar uma diferença importante no orçamento de uma família.
Imagine-se, por exemplo, alguém que consiga obter 300 euros adicionais todos os meses. Ao longo de um ano, esse valor representa 3.600 euros. Se for utilizado de forma planeada, poderá contribuir para uma reserva de emergência, reduzir dívidas, financiar um projeto ou reforçar investimentos.
É precisamente essa capacidade de criar uma margem que ajuda a explicar o interesse crescente pela diversificação das fontes de rendimento.
Investimentos estão entre as alternativas mais procuradas
Entre as diferentes formas de obter dinheiro adicional, os investimentos financeiros aparecem com destaque.
Segundo o estudo, 36% dos participantes que possuem rendimentos adicionais recorrem a investimentos financeiros.
A possibilidade de fazer o dinheiro trabalhar através de aplicações financeiras tem atraído consumidores que procuram complementar o rendimento proveniente do trabalho.
Outra alternativa mencionada é o rendimento obtido através de juros de depósitos ou de outros produtos de poupança.
Os dividendos também fazem parte deste universo. Neste caso, o rendimento está relacionado com investimentos que podem distribuir parte dos seus resultados aos investidores.
É importante, no entanto, compreender que diferentes formas de investimento apresentam diferentes níveis de risco, liquidez e potencial de retorno. Por isso, procurar informação e conhecer as características de cada produto é fundamental antes de tomar qualquer decisão financeira.
A diversificação, por si só, não elimina riscos. O objetivo deve ser construir uma estratégia compatível com os objetivos, o prazo e a capacidade financeira de cada pessoa.
Freelancing e prestação de serviços também ganham espaço
Outra alternativa bastante presente é o trabalho freelance ou a prestação de serviços.
De acordo com o estudo, esta modalidade é utilizada por 33% dos participantes que possuem rendimentos adicionais.
A expansão das ferramentas digitais tornou possível prestar determinados serviços sem que seja necessário manter uma estrutura empresarial tradicional.
Profissionais podem trabalhar remotamente, atender clientes de diferentes cidades ou até de outros países e utilizar plataformas digitais para divulgar os seus serviços.
Design, programação, tradução, consultoria, edição de vídeo, fotografia, produção de conteúdos, assistência virtual e diversas outras atividades podem ser realizadas através deste modelo, dependendo das competências de cada pessoa e das oportunidades existentes no mercado.
Para alguns trabalhadores, o freelance funciona como complemento ao emprego principal. Para outros, pode representar uma etapa inicial antes de uma eventual mudança profissional.
A internet está a mudar as possibilidades
Uma das conclusões mais interessantes do estudo está relacionada com o papel da internet.
Para 94% dos consumidores consultados, tornou-se mais fácil criar fontes adicionais de rendimento através do meio digital.
Esta percepção ajuda a explicar a quantidade de novas atividades que surgiram nos últimos anos.
A internet reduziu algumas barreiras tradicionais para quem pretende começar uma atividade paralela.
Hoje, uma pessoa pode anunciar um produto, oferecer um serviço, produzir vídeos, criar conteúdos, vender artigos usados ou desenvolver um negócio digital utilizando ferramentas que, em muitos casos, estão disponíveis diretamente a partir de um computador ou telemóvel.
A venda de produtos usados é um exemplo simples.
Objetos que anteriormente ficavam esquecidos em casa podem ser colocados à venda em plataformas digitais e transformar-se em dinheiro.
Embora não seja necessariamente uma fonte de rendimento permanente, esta atividade mostra como os meios digitais facilitaram a ligação entre quem pretende vender e quem procura comprar.
Criadores de conteúdo e novas profissões digitais
A criação de conteúdos é outra área que ganhou importância.
Redes sociais, plataformas de vídeo, blogs, podcasts e outros formatos digitais criaram oportunidades para pessoas que conseguem produzir conteúdos capazes de atrair audiência.
A monetização pode ocorrer de diferentes formas, dependendo da plataforma e do modelo de negócio: publicidade, patrocínios, venda de produtos, serviços, afiliados, assinaturas ou outras fontes.
Isso não significa que qualquer pessoa consiga gerar imediatamente um rendimento significativo através da internet.
Construir uma audiência exige tempo, consistência, conhecimento e capacidade de adaptação.
Ainda assim, a existência dessas possibilidades representa uma mudança importante em relação ao passado.
Hoje, uma pessoa pode transformar conhecimento, experiência, criatividade ou uma habilidade específica num produto ou serviço que pode ser apresentado a um público muito maior.
A Inteligência Artificial entra na equação
A evolução da Inteligência Artificial acrescenta uma nova dimensão a esta transformação.
No estudo, 84% dos participantes consideram que a Inteligência Artificial poderá facilitar, muito ou em alguma medida, a criação de novas fontes de rendimento.
Ferramentas de IA já podem auxiliar na criação de textos, imagens, vídeos, apresentações, análises, automações e diversas outras tarefas.
Para trabalhadores independentes e pequenos empreendedores, isso pode significar uma redução do tempo necessário para realizar determinadas atividades.
Um profissional que antes precisava de várias horas para preparar determinado material pode utilizar ferramentas de IA para acelerar parte do processo. Isso não elimina a necessidade de conhecimento humano, revisão e responsabilidade sobre o resultado, mas pode aumentar a produtividade.
A tecnologia também pode facilitar a criação de pequenos negócios digitais e permitir que uma única pessoa desempenhe tarefas que anteriormente exigiam uma equipa maior.
Ao mesmo tempo, a utilização da Inteligência Artificial exige aprendizagem e adaptação. As ferramentas evoluem rapidamente, e quem pretende utilizá-las profissionalmente precisa acompanhar as mudanças.
E se o rendimento adicional desaparecer?
Talvez uma das informações mais reveladoras do estudo esteja relacionada com a importância que estas receitas adicionais já assumem na vida dos consumidores.
Quando questionados sobre o que aconteceria se deixassem de contar com essa fonte adicional, 63% afirmam que teriam alguma ou muita dificuldade para manter o atual nível de vida.
Isto significa que, para uma parcela significativa dos consumidores, o rendimento extra deixou de ser simplesmente um dinheiro destinado a pequenos luxos.
Ele passou a integrar efetivamente o orçamento.
Quando uma família começa a depender de duas ou mais fontes de rendimento para manter as suas despesas, qualquer alteração numa dessas fontes pode provocar consequências relevantes.
Por isso, a diversificação pode ser encarada de duas formas diferentes.
Por um lado, representa uma oportunidade de aumentar o rendimento. Por outro, pode tornar-se uma necessidade para consumidores que já não conseguem manter o mesmo padrão de vida apenas com o rendimento principal.
O custo de vida como fator de mudança
Quando perguntados sobre as razões que podem continuar a impulsionar esta tendência nos próximos anos, os participantes apontam principalmente dois fatores: o aumento do custo de vida e a insuficiência dos salários.
A lógica é relativamente simples.
Se as despesas aumentam mais rapidamente do que o rendimento, a diferença precisa de ser compensada de alguma maneira.
Algumas pessoas procuram reduzir gastos. Outras recorrem à poupança acumulada. E existe também quem procure aumentar os rendimentos.
Nesse cenário, ter mais de uma fonte de rendimento pode tornar-se uma estratégia de proteção diante de um ambiente económico mais exigente.
Não significa necessariamente abandonar o emprego tradicional. Pelo contrário, muitas pessoas procuram manter o salário principal enquanto constroem uma segunda atividade paralela.
Uma mudança especialmente forte entre os mais jovens
Os dados relativos aos consumidores mais jovens merecem atenção.
Entre os participantes dos 18 aos 34 anos, 50% já possuem mais de uma fonte de rendimento.
Esta geração cresceu num ambiente em que a internet, as redes sociais, o comércio eletrónico e as plataformas digitais fazem parte do quotidiano.
Para estes consumidores, a ideia de depender exclusivamente de um empregador pode parecer menos natural do que para gerações anteriores.
Além disso, muitos jovens têm contacto com modelos de trabalho remoto, empreendedorismo digital, economia freelance e criação de conteúdos.
Isso pode contribuir para uma maior disposição para experimentar diferentes formas de obter rendimento.
Ao mesmo tempo, a procura por novas fontes de rendimento também pode estar relacionada com as dificuldades de entrada e progressão no mercado de trabalho.
Mais rendimento também significa mais responsabilidade
Diversificar os rendimentos pode trazer benefícios, mas também exige organização.
Ter várias fontes de dinheiro significa acompanhar entradas e saídas, controlar despesas, compreender impostos e obrigações aplicáveis, avaliar riscos e separar, sempre que possível, as finanças pessoais das atividades profissionais.
Outro ponto importante é evitar a ideia de que toda oportunidade apresentada na internet representa dinheiro fácil.
O crescimento das plataformas digitais também trouxe consigo ofertas enganosas, promessas exageradas e modelos de negócio de elevado risco.
Antes de investir dinheiro ou dedicar tempo a uma nova atividade, é importante verificar como funciona o modelo, quais são os custos, quais são os riscos e de onde efetivamente vem o rendimento.
Informação e planeamento continuam a ser fundamentais.
Segurança, autonomia e resiliência financeira
No fundo, a mudança parece ir além da simples vontade de ganhar mais dinheiro.
Como resume o estudo da ConsumerChoice, ter várias fontes de rendimento está progressivamente associado à procura de “segurança, autonomia e resiliência financeira”.
A segurança está relacionada com a possibilidade de não depender exclusivamente de uma única fonte.
A autonomia pode significar ter maior liberdade para tomar decisões profissionais e financeiras.
E a resiliência representa a capacidade de enfrentar períodos de dificuldade sem que uma única alteração provoque um impacto imediato e profundo no orçamento.
Ter várias fontes de rendimento não garante estabilidade financeira. Mas, quando construídas de forma responsável, diferentes fontes podem contribuir para uma estrutura financeira mais diversificada.
Uma tendência que pode continuar a crescer
Os consumidores parecem acreditar que esta transformação está apenas a começar.
Cerca de 77% dos participantes consideram que atualmente é mais comum ter várias fontes de rendimento do que há cinco anos.
A evolução tecnológica, a expansão do trabalho remoto, o crescimento do comércio digital, a economia freelance e o desenvolvimento da Inteligência Artificial podem continuar a criar novas possibilidades.
Ao mesmo tempo, fatores económicos como o custo de vida e a evolução dos salários poderão continuar a incentivar as pessoas a procurar alternativas.
O resultado pode ser um mercado de trabalho cada vez mais diversificado, no qual uma mesma pessoa combina emprego, investimentos, prestação de serviços, atividades digitais e outras formas de rendimento.
A grande mudança talvez esteja precisamente aí: deixar de pensar no rendimento como algo necessariamente ligado a uma única fonte.
Para muitos consumidores, construir diferentes fontes de receita pode representar uma forma de aumentar a margem financeira, preparar-se para imprevistos e criar novas possibilidades para o futuro.
No entanto, cada estratégia precisa de ser analisada individualmente. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra.
Mais importante do que simplesmente procurar várias fontes de rendimento é compreender quanto se ganha, quanto se gasta, quais são os riscos envolvidos e que objetivos se pretende alcançar.
Num cenário de transformação económica e tecnológica, a educação financeira torna-se cada vez mais importante.
Conhecer as opções disponíveis, avaliar oportunidades com espírito crítico e tomar decisões informadas pode fazer a diferença entre simplesmente procurar ganhar mais dinheiro e construir uma estratégia financeira sustentável.
O “Minuto Consumidor” é um projeto dedicado a esclarecer dúvidas e ajudar os consumidores a tomar decisões mais informadas.
Acompanhe o projeto no Expresso Online e na antena da SIC Notícias.
Esta iniciativa conta com o apoio da Escolha do Consumidor.
Porque consumidores informados fazem melhores escolhas.
