House of Togas: quando o poder sabe que vai piorar


Antes de começar, um aviso importante.

Se você é do tipo que acredita que questionar instituições é atacar a democracia, que fazer perguntas é golpismo e que certos poderes não podem ser discutidos, talvez este texto não seja para você. Agora, se você ainda acha que democracia vive de transparência, que ninguém está acima da lei e que poder sem limite sempre vira problema, então sente-se. Porque hoje a gente vai passear por um país onde quase nada mais parece coincidência — tudo soa como agenda sigilosa.

O argumento oficial é que o sigilo é virtude. Mas, curiosamente, entramos numa fase em que ministros defendem outros ministros como se fosse final de campeonato: vence quem passa mais pano com a cara mais limpa. Segundo relatos de bastidores, o clima é de pânico. O recado foi dado sem margem para interpretação: vai piorar.

Esse é o resumo de mais um episódio da série House of Togas, uma produção 100% brasileira.

Quando todo mundo fala ao mesmo tempo

O que aconteceu não foi retrospectiva nem TBT. Foi ontem.
O Brasil acordou com aquela sensação clássica de abrir o grupo da família e encontrar dezenas de mensagens não lidas. Você sabe que deu ruim. E deu.

Ontem todo mundo resolveu falar ao mesmo tempo. Até o sigilo falou. E quando isso acontece, não é normalidade — é modo emergência.

Durante uma transmissão ao vivo, a jornalista Andreia Sadi afirmou, com a tranquilidade de quem comenta a previsão do tempo, que investigadores avisaram ministros do Supremo de que o caso envolvendo o Banco Master vai se agravar. Não que as investigações vão avançar — elas vão piorar. Segundo os próprios relatos recebidos pelos ministros, o buraco é bem mais fundo.

A pergunta que surge não é pequena: esse caso continuará nas mãos do ministro Dias Toffoli?

Nos bastidores, a avaliação é direta: não existe saída honrosa. A única saída seria devolver o caso à primeira instância, onde deveria estar desde o início. Mas há resistência.

E aqui vale uma pausa básica, quase didática: desde quando investigador avisa ministro? Investigador investiga. Ministro julga. Um não manda mensagem para o outro dizendo “se prepara que vem coisa aí”. Se houve aviso, o problema não é apenas quem avisou — é por que avisou e em que contexto isso aconteceu.

Democracia não funciona em modo spoiler.

Quando a defesa vira torcida

No mesmo dia, Malu Gaspar entrou no circuito e jogou gasolina no incêndio. Segundo ela, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes estariam atuando para manter Toffoli como relator do caso. O motivo? Simples: vai piorar.

A avaliação de fontes que acompanham as investigações é clara: o que já veio à tona seria suficiente para tornar insustentável a permanência do ministro no caso. E isso considerando apenas o que é público. Ainda há celulares apreendidos, documentos, sigilos telemáticos e informações que sequer vieram à luz.

Aqui entra uma regra simples da vida pública:
Se um caso é irrelevante, ninguém briga por ele.
Se é tranquilo, ninguém se movimenta.
Se é só “ataque da imprensa”, ninguém entra em campo.

Mas quando o risco cresce e o desgaste ameaça se espalhar, a prioridade passa a ser controlar danos. Não é sobre justiça. É sobre gestão de crise.

E como num roteiro ensaiado, Gilmar Mendes apareceu publicamente para defender Toffoli em rede social, com um texto cheio de palavras bonitas — Constituição, devido processo, confiança da sociedade. Tudo muito genérico. Nenhuma palavra sobre jatinhos, relações familiares ou conflitos óbvios. Defesa suficiente para constar, mas cuidadosa para não complicar.

Desde quando juiz defende juiz no Twitter?
Decisão se defende nos autos. O resto parece torcida organizada.

A crise que não pode ser chamada de crise

Enquanto isso, a OAB de São Paulo encaminhou ao STF um código de ética sugerindo que ministros evitem manifestações político-partidárias. O detalhe constrangedor é que isso já está na lei do impeachment. Ou seja, a OAB basicamente pediu “por favor” para que ministros cumpram a lei.

Humilhante para a instituição. E para o país.

O presidente do STF, apelidado nos bastidores de “Fraquim”, inicialmente afirmou que impeachment de ministro causaria uma crise institucional gravíssima. Horas depois, mudou o tom e disse que ou o Supremo se autolimita, ou poderá sofrer limitação externa.

Tradução: quando o medo cresce, o discurso muda.

Quem está confortável não fala em autolimitação. Quem está seguro não antecipa contenção externa. Isso soa menos como reflexão e mais como pedido educado para que ninguém aperte mais.

Alinhamento institucional explícito

Como se não bastasse, o diretor-geral da Polícia Federal apareceu publicamente defendendo a regularidade da relatoria de Toffoli. Desde quando a PF defende ministro do STF? A polícia investiga. Não faz defesa política de juiz.

Talvez não seja crime. Mas é histórico. E em tempos de crise, isso tem nome: alinhamento institucional.

O argumento de todos é sempre o mesmo: “cuidado, senão gera crise”. Se perguntar gera crise. Se investigar gera crise. Se cobrar gera crise. Ou seja, o STF só não entra em crise se ninguém tocar nele.

Que democracia é essa que não suporta escrutínio?

Spoilers dos próximos episódios

E como toda boa série, o episódio termina com gancho.
Pagamentos milionários, escritórios de advocacia ligados a figuras centrais, encontros fora da agenda, alianças políticas, silêncio estratégico e muito medo do que ainda não veio a público.

Quando o poder sabe que vai piorar, ele não se explica.
Ele se fecha, se alinha e se defende.

Sistemas defensivos não se ativam à toa.

Algo além do que já sabemos — e que já é grave — ainda está chegando.

Seguimos aguardando os próximos episódios de House of Togas, uma produção nacional que ninguém queria financiar, mas que todos estamos pagando para assistir.

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